MEMORIAL - HABITAÇÕES COLETIVAS TRECHO II - SOL NASCENTE

    “O distrito, ..., deve atender a mais de uma função principal; de preferência mais de duas. Estas devem garantir a presença de pessoas que saiam de casa em horários diferentes e estejam nos lugares por motivos diferentes, mas sejam capazes de utilizar boa parte da infra-estrutura”

(JACOBS,jane . Morte e Vida de grandes cidades. P.167) 

    O “Habitar Coletivo”, grande tema da cidade moderna, ainda hoje se depara com os desafios de traduzir em arquitetura e desenho urbano todas as complexidades e diversidades sócio ambientais contemporâneas. Cabe ao arquiteto urbanista interpretar as dinâmicas sociais e econômicas e intervir no tecido urbano fazendo a “mediação” entre os territórios formais e informais em todas as escalas, desde a unidade habitacional até o delinear das quadras e passeios públicos. Para tanto é necessário utilizar o Desenho como ferramenta contundente que manifesta claramente suas intenções. Além de qualificar a moradia -  ambientes funcionais, bem iluminados e ventilados -  não menos importante é fomentar o comercio de âmbito local, propiciar espaços de lazer para as crianças, oferecer oportunidades de encontros nas esquinas, revalorizar as ruas e passeios públicos dando prioridade ao pedestre. Tudo na escala adequada, aprazível e humana. 
     Entendemos o Sol Nascente como parte integrante de um todo. Portanto mais do que desenhar um conjunto de edifícios, o que pretendemos é propor um Desenho de Cidade; Densa, Compacta e com Infra-estrutura de qualidade. O modelo que será aplicado para os blocos B1 e B2, replicáveis em outras 5 áreas adjacentes, traz consigo uma nova lógica na ocupação dos espaços, assumindo a função de elemento estruturador do território na escala do bairro.

PARTIDO

    Conceitualmente nosso projeto pretende contribuir com a proposição de percursos mais agradáveis entre os edifícios, em quadras com maior permeabilidade visual, possibilitar maior fluidez ao caminhar por meio de passagens entre os blocos e continuidade de passeios, pátios e calçadões.  No espaço intersticial entre os blocos B1 e B2 propomos os tradicionais “calçadões”, verdadeiros promotores de Vitalidade urbana, eminentemente voltado ao comercio e serviços, cujo urbanismo propicia a circulação não só dos moradores dos conjuntos residenciais propostos como também de toda a vizinhança, assumindo a função de polo de atração a nível do bairro. Em cada lado desse calçadão haverá 2 renques de boxes comerciais em forma de “L”, rebatidos entre si, de um único pavimento cuja cobertura serve de área de lazer para as moradias dos conjuntos residenciais sobrepostos a estes. Com esse jogo de volumes que o diferencia dos demais blocos residenciais, esses espaços refletem seu caráter de exceção na escala urbana. 

    Morfologicamente optamos pela composição modular dos edifícios em “L”, numa configuração que resulta de rotações e rebatimentos destes, conferindo unidade formal ao todo.  A idéia é expandir os pátios internos das quadras, mas com o cuidado de não gerar espaços esparsos, demasiadamente extensos, que costumam prejudicar sua apropriação e gerenciamento.  Nesses pátios internos de 20 m x 20 m destinados ao lazer dos moradores, estimulam-se o convívio social e as relações de vizinhança. Ao percorrer pelos espaços do conjunto nota-se que há uma gradação sensorial; desde os interiores privativos de cada unidade habitacional, passando pelos corredores e pátios internos de uso coletivo, onde os pais podem visualizar suas crianças brincando enquanto exercem suas atividades diárias,’ e finalmente se comunicam os espaços públicos por umas de suas 4 saídas no rés do chão.

    A circulação horizontal é feita através de galerias abertas aos pátios internos com o intuito de promover a integração entre os moradores e conferir às áreas comuns uma atmosfera de unidade do conjunto. Posicionamos as circulações verticais, escadas e previsão do elevador, sempre na articulação do módulo “L” fazendo dessas áreas um ponto nodal das dinâmicas internas.

    Na escala do bairro tivemos a preocupação de produzir a identificação do homem com “o lugar” e suscitar o sentido de “Singularidade” através da composição peculiar dos conjuntos edificados, de maneira tal que a articulação dos volumes constituem uma nova lógica urbana, decifrável facilmente, aptas para atender as demandas sociais de moradia, lazer e atividades socioeconômicas.

EFICIÊNCIA ENERGÉTICA E CONFORTO TÉRMICO

    A configuração dos Conjuntos habitacionais em “L” em torno de um pátio interno contribui para a geração de um “microclima” mais ameno pela existência de áreas sombreadas, superfícies ajardinadas e massas arbóreas. Espelhos d’água ao mesmo tempo que cumprem sua função paisagística, reservam as águas pluviais captadas pela cobertura e umidificam o ar, tipicamente quente e seco da região. 

    No interior das unidades habitacionais os ambientes de maior permanência (dormitórios e sala/cozinha ) possuem maiores aberturas para iluminação e aeração, enquanto que nas áreas de serviço e banheiros as janelas altas, voltadas para a circulação do pátio interno, garantem a ventilação cruzada sem a perda de privacidade .             
    O acabamento interno das unidades são de pintura látex em cores claras para otimizar a reflexão da luz nos ambientes. Para o aquecimento das águas de chuveiro e cozinha serão instalados painéis solares na cobertura dos blocos. 

 

REUSO DAS AGUAS e DRENAGEM

    Sistemas de captação das águas pluviais pela cobertura e condução para cisternas no subsolo estão previstas para utilizar na irrigação das áreas verdes e limpeza das áreas comuns. Para redução de desperdício de água nas instalações hidráulicas propomos bacias sanitárias com caixa acoplada e dispositivos de redução de fluxo em torneiras e chuveiros. 
    No que se refere à permeabilidade do solo nos calçamentos externos especificamos pisos de concreto intertravado, de alta capacidade drenante, e piso-grama nas vagas de estacionamento. 

 

SISTEMA CONSTRUTIVO

    Buscando maior racionalização da obra e, consequentemente, redução de prazos e custos adotamos o sistema construtivo de Alvenaria Estrutural em blocos de concreto e lajes painel treliça. Todo o dimensionamento dos espaços internos e disposição de elementos de circulação vertical e horizontal, prumadas das instalações hidráulicas e aberturas de portas e janelas foram concebidas adaptando-se à lógica modular da alvenaria estrutural. Para as aberturas especificamos esquadrias em perfis de alumínio extrudado em medidas padrão, linha comercial, com pintura eletrostática. Para os gradis, guarda corpos e corrimãos adotamos aço carbono galvanizado confeccionados em barras chatas com acabamento de pintura esmalte acetinado. 
    Para a cobertura sobre laje impermeabilizada especificamos cobertura em telha metálica tipo “sanduiche” com isolamento termo acústico em lã de rocha. O reservatório das caixas d’água de polietileno, e os barriletes estão posicionados na parte central da laje de cobertura para otimizar os percursos das tubulações e diminuir perdas de pressão.

     A opção pela alvenaria estrutural, comparando com outros métodos tradicionais de construção, possibilita um canteiro de obras mais limpo por diminuir drasticamente a necessidade de fôrmas e escoramentos e, consequentemente, otimiza processos e prazos de execução e gera menos resíduos e desperdícios de materiais. Os materiais especificados no projeto são padrões de mercado e de fácil reposição, fator que facilita a manutenção e estimula o comércio local. 

    Estão previstos em cada bloco residencial, locais específicos para armazenagem da coleta de lixo, separados por “orgânico” e “reciclável” e posicionados junto às escadas.

“...a Casa é a Cidade e a Cidade é a Casa – a cidade não é cidade a menos que seja também uma grande casa – a casa não é casa a menos que seja também uma pequena cidade.” 

(Aldo Van Eyck , Claridade Labiríntica, 1966)